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DE FRENTE COM UM MCLAREN
por Rafael Ligeiro
São Paulo (BR), 19 Abr 2007
Recentemente li uma interessante entrevista com Luciano Burti, publicada no site Grande Prêmio. Entre muitas declarações, a que mais chamou minha atenção, sem dúvidas, foi quando o ex-piloto das equipes Jaguar e Prost descreveu a emoção de estar próximo a um carro de Fórmula-1 pela primeira vez. Isso aconteceu durante a passagem da categoria por Interlagos, em 1991. Então aos 16 anos, Luciano era apenas mais um espectador no setor G do circuito paulistano e se "derreteu" ao ver a Ferrari de Jean Alesi sair dos boxes rumo à pista de 4.325 metros de extensão.
Agora pensem. Se Burti, um sujeito que esteve por quatro anos na Fórmula-1, guarda com carinho a primeira vez em que viu um carro da categoria, imaginem pessoas cujo cotidiano e ganha-pão estão aquém do cockpit de um monoposto de competições? Lembro muito bem da primeira vez em que fiquei de frente com um F-1. Foi durante exposição sobre Ayrton Senna, realizada em maio de 2001, na Pinacoteca do Ibirapuera, em São Paulo.
Depois de um rápido almoço em casa, meu pai e eu entramos no carro rumo àquela mostra sediada para lá de onde Judas perdeu as botas... Curiosamente o trânsito de São Paulo não deu as caras e cheguei ao Pavilhão Manoel da Nóbrega, no Ibirapuera, uns 30 minutos antes de minha previsão. Centenas de pessoas já estavam nas imediações da Pinacoteca, aguardando o início do expediente de visitação. Por algum tempo, parecia estar na largada de uma prova de categoria de base: grid cheio, gente apreensiva, queimando a largada... No entanto, logo que os organizadores do evento nos deram bandeira verde, aquilo virou largada de prova da Fórmula-1: processo civilizado, sem enrosco, com uma troca de posição aqui e outra acolá - sempre graças à habilidade de um ou outro "espertalhão".
Estava muito ansioso para conferir o que tinha no Pavilhão, contudo logo que passei pelo saguão e, ainda à distância, fui pego de surpresa: no salão tinha nada menos que o McLaren MP4/5B de Ayrton na conquista do bicampeonato, em 1990. Por alguns instantes fiquei irredutível, tão paralisado quanto jogador de futebol que toma bolada no estômago... Mas logo tratei de apertar o passo e ficar o mais próximo possível daquela beleza criada por Neil Oatley.
Durante uns minutos - que para mim pareciam eternidade - observei todos detalhes do MP4/5B. Era lindo! Foto aqui, foto acolá... Mas de fato estava concentrado apenas em contemplar aquele carro. Longe das pistas, o McLaren era como um animal fora do habitat, porém, ainda assim, transmitia o calor das competições automobilísticas e imponência. Olhando aquela máquina, não apenas vinha à mente as conquistas de Ayrton; surgia a lembrança do início dos anos 90 na Fórmula-1. Uma época que pouco pude acompanhar, mas que ficou marcada pelos últimos suspiros de naturalidade no âmbito tecnológico do campeonato.
É bem verdade que nessa época começava o desenvolvimento de diversos aparatos eletrônicos visando melhor rendimento aos monopostos. Prova disso é que Nigel Mansell fez barba, cabelo - e aparou o bigode - em 1992, a bordo de um Williams equipado com suspensão ativa e outras maravilhas que fizeram Senna apelidar aquele Williams-Renault de "carro de outro planeta". Mas o equipamento daquela época ainda era capaz de deixar mais evidentes defeitos e qualidades dos pilotos que atualmente. Era possível identificar gente com uma tocada mais agressiva, como Ayrton; aqueles muito velozes, mas que destruíam o carro - caso de Mansell; piloto mais consistente, Alain Prost; fantástico acertador de carros, Nelson Piquet; e por aí vai...
A tecnologia invadiu os monopostos de tal modo que é difícil apontar, por exemplo, um bom acertador de carro no grid atual. Lógico que na época de Senna, Piquet, Prost e Mansell, a telemetria já dava as caras. Mas atualmente o entrosamento entre engenheiros e o "software" é tamanho que o staff de um time sabe quais problemas apresenta um carro mesmo antes do piloto proferir qualquer comentário sobre o rendimento do monoposto. O que o piloto vai falar é importante, mas vira apenas um complemento, pois, antes mesmo do carro chegar aos boxes já passa pela mente dos engenheiros o filme de como resolver determinado problema.
Curiosamente, na Fórmula-1 do início dos anos 90, até mesmo os erros pareciam mais naturais que atualmente. O piloto engatava uma marcha errada, sentia o urro do motor e logo percebia que tinha feito besteira. Hoje, isso só acontece se houver algum problema mecânico ou o piloto, em uma regressão aos tempos de pré-escola, confundir a mão na hora de acionar a borboleta atrás do volante...
No entanto, não devemos comparar pilotos de diferentes épocas. Cada um foi grande - ou ridículo - ao seu tempo. O que mudou foi a quantidade de componentes que facilitam a condução dos carros e o profissional das pistas precisou se adequar a essa realidade. Fruto do caminho que as próprias equipes de Fórmula-1 tomaram, graças à magnificência da categoria. Caminho irreversível e que faz da "simplicidade" daquele carro que vi pela primeira vez algo cada vez mais distante.
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