Sébastien Bourdais em foco

BOURDAIS, O PORQUINHO
por Rafael Ligeiro
São Paulo (BR), 16 Mar 2008

Sébastien Bourdais parece um sujeito na contramão da Fórmula-1 contemporânea. Em época que os pilotos costumam despontar no certame com pouco mais de 20 anos, a estréia do francês pode ser considerada "tardia". Aos 29 anos, Bourdais, por exemplo, tem a mesma idade do ferrarista Kimi Räikkönen, que já disputa sua oitava temporada - período no qual acumulou um título e dois vice-campeonatos. Além disso, o estereotipo do piloto da Toro Rosso é distinto aos demais colegas do grid. Parece muito mais um daqueles caras super inteligentes, que costumam sentar na primeira fileira da sala de aula e desvendam qualquer teorema de matemática e de física com a mesma facilidade que o Romário, mesmo quarentão, tem para marcar gols.

No entanto, Bourdais sabe acelerar. E muito. Ele já havia provado isso nos Estados Unidos. Após conquistar o título mundial de Fórmula-3000 em 2002 - herdado de Tomáš Enge, destituído após um exame antidoping flagrar o uso de maconha antes de uma etapa, Sébastien partiu à tradicional equipe Newman/Haas para disputar a temporada 2003 da Champ Car. Com três vitórias e a quarta posição na tabela de pontos, foi o estreante do ano.

Nas quatro temporadas seguintes, não tomou conhecimento dos rivais. Nem mesmo do companheiro de equipe, o brasileiro Bruno Junqueira, que apesar de não ser um gênio das pistas sempre foi osso duro de roer em qualquer campeonato. Foram quatro títulos em seqüência ao francês. Pilotos como Rick Mears e Bobby Rahal jamais conseguiram tal proeza em terras estadunidenses.

Curiosamente, apesar do sucesso, Bourdais via-se cada vez mais longe de realizar o desejo de alcançar a Fórmula-1. Até receber convite de Gerhard Berger para testar um monoposto da Toro Rosso, no final da temporada 2006, o piloto natural de Le Mans só tinha o nome envolvido nos famigerados boatos de paddock que teimavam em colocá-lo sempre na conterrânea Renault.

De fato, seria incorreto afirmar que o francês já superou a popular desconfiança que envolve pilotos que trocam o automobilismo norte-americano pela categoria da FIA - manobra em que uns, como Jacques Villeneuve, se deram muito bem; outros, como Michael Andretti, muito mal. No entanto, Bourdais reúne ingredientes para dar certo na F-1. Até porque a pressão sobre ele é muito pequena numa equipe que, embora prometa muito para 2008, ainda tem "status" de nanica. Além disso, certamente não haveria melhor momento para Bourdais debutar na categoria.

Com a ausência dos auxiliares eletrônicos de pilotagem - ou, ao menos, aqueles que a "tal" de centralina reconheça - a exigência sobre os pneus dos monopostos nas provas de 2008 é maior que nas realizadas até o ano passado, quando havia controle de tração. Com isso, o pneu é esfacelado ao longo das voltas. Esses detritos dos pneus ficam na pista e são atrelados... aos próprios pneus dos monopostos! Com isso, uma nova e pequena camada de borracha é formada nos compostos, cobrindo consideravelmente suas ranhuras e tornando-o praticamente em um slick. Bom e velho slick que Monsieur Bourdais usou nas cinco temporadas em que esteve na Champ Car. Daí, fica extremamente fácil entender porque o francês mostrou excelente adaptação e rendimento com pneus usados no monoposto. Algo, aliás, que pode fazer a diferença nos dois próximos GPs (Malásia e Bahrein), geralmente realizadas sob alta temperatura - que contribui com o desgaste dos pneus.

Embora dono de uma tocada segura e consistente ao longo das corridas, Bourdais ainda não é capaz de atingir uma volta extremamente veloz nos treinos. Não que esteja restrito a boas posições no grid nesse início de temporada. Contudo, não devemos esquecer que ele é um estreante na categoria e, além da adaptação àlgumas particulares do carro de F-1 - especialmente os pneus sulcados, terá de encarar circuitos no qual jamais pilotou, como aconteceu em Melbourne. Se pisar mais do que pode, tem chance boa de "beijar" o muro.

Desse modo, entre - muitos - prós e - alguns - contras está Bourdais. Um piloto com ingredientes para dar certo. Mas é necessário tempo para ver como sua carreira transcorrerá, afinal gente boa de braço também dá errado na F-1. Exemplos sobram. E a única coisa garantida até o momento é que o desempenho dele com pneus sujos é tão bom que não seria estranho se alguém apelidasse o francês de porquinho das pistas...