Nelsinho Piquet em foco

HERMANO PIQUET
por Rafael Ligeiro
São Paulo (BR), 17 Dez 2007

Esporte de elite. Esse é o conceito que escuto com mais freqüência quando às pessoas se referem ao automobilismo. Jamais concordei totalmente com essa sentença. Apenas em metade dela.

Metade? Como assim? Embora pareça ambíguo, explico. O esporte a motor é uma atividade bem menos acessível que futebol, vôlei ou, até mesmo, tênis. Logo nas primeiras aceleradas de um garoto aspirante a profissional em um kart, lá pelos oito ou nove anos, já são despendidos alguns milhares de dólares por temporada. Tal quantia aumenta gradativamente até o piloto atingir uma categoria top de fórmula ou turismo, nos Estados Unidos ou na Europa. Daí sim, começa a colocar alguns trocados no bolso. Contudo, quando o assunto é torcida, ao menos no Brasil, qualquer barreira financeira é destroçada.

É fácil encontrar fãs de automobilismo das mais diversas classes sociais. Méritos de gente como Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubens Barrichello, Gil de Ferran, Cristiano da Matta, Hélio Castroneves, Tony Kanaan e Felipe Massa, peças importantes nesse processo de "popularização" do esporte em nosso Brasilzão. Aliás, o esporte também atrai atenção dos brazucas, pois, assim como no futebol, o País acumula vitórias e títulos no Exterior todos os anos.

Muito mais que tal contraste, vejo uma característica interessante no esporte a motor: a integração entre países. Como diversos clubes do futebol europeu estão recheadas de jogadores das mais diferentes pátrias, em inúmeras categorias do automobilismo, especialmente na Fórmula-1, as equipes quase sempre "possuem" bem mais que uma nacionalidade - embora defendam apenas uma bandeira. Exemplos sobram. A Ferrari é italiana de Maranello, comandada por um francês (Jean Todt), com um finlandês (Kimi Räikkönen) e um brasileiro (Felipe Massa) ao volante dos carros.

Até mesmo nas mais "patrióticas" não há alguma variedade de nacionalidades. A BMW é alemã em quase tudo. Uma das sedes fica em Munique; diretor-esportivo (Mario Theissen) e primeiro piloto (Nick Heidfeld) também são germânicos. Contudo, as bandeiras de Polônia e Suíça são representadas, respectivamente, pelo talentoso piloto Robert Kubica e pela luxuosa sede em Hinwill. Situação semelhante é a da inglesa McLaren. Da Inglaterra só não vem um de seus titulares (Heikki Kovalainen) e a montadora Daimler-Chrysler, responsável pelo fornecimento de motores, sob o nome Mercedes-Benz, e dona de 40% das ações do time.

Entretanto, quando o título em jogo é o do campeonato de "salada de nações", a Renault dispara à frente das adversárias com larga vantagem - assim como fazia durante os Grandes Prêmios nos tempos de controle de largada.

Uma das sedes do time fica em Enstone, na Inglaterra. Além disso, o time é chefiado por um italiano (Flavio Briatore) e possui pilotos titulares de Espanha (Fernando Alonso) e Brasil (Nelsinho Piquet). No entanto, "A Marselhesa" é a trilha sonora quando um dos pilotos da equipe bicampeã de Pilotos e Construtores fatura o primeira lugar numa corrida. Afinal, o time é de propriedade da francesa Renault, gigante do ramo automobilístico. E possui um QG em Viry-Châtillon, que, somente pela gramática, já fica notório saber em qual nação está situada.

Aliás, certamente não haveria piloto melhor para integrar essa Torre de Babel que Nelsinho Piquet. Para felicidade geral da nação, o vice-campeão da temporada 2006 da GP2 defende o Brasil. Mas bem que poderia ser alemão... Ele nasceu em Heidelberg, cidade germânica de 130 mil habitantes e um dos principais pólos universitários do Velho Continente. Foi em 25 de julho de 1985, quando o pai Nelson se preparava para o Grande Prêmio da Alemanha, em Nürburgring. Além disso, Nelsinho é filho de holandesa, o que também lhe confere tal cidadania.

Brasileiro, holandês, nascido na Alemanha... Mas se engana quem pensa que pára por aí. Piquet Jr. também já viveu seus dias de argentino.

Ainda em 2000, após oito vitoriosas temporadas de kart - com direito a três títulos brasileiros, Nelsinho se preparava para iniciar, a partir do ano seguinte, a carreira a bordo de monopostos de "Fórmula". Na época, a regulamentação da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) obrigava qualquer piloto recém-saído do kart a passar primeiro pela Fórmula Júnior. Como a categoria não agradava a Nelson Piquet, o tricampeão não titubeou: inscreveu Nelsinho como argentino no Campeonato sul-americano de Fórmula-3! Conhecemos a história daí em diante: uma seqüência de vitórias e recordes no certame, que culminou com o título da temporada 2002. E depois afirmamos que o último hermano a faturar o caneco foi Néstor Gabriel Furlán, na distante temporada 1998...

"¡A decir verdad, el argento Piquet anda bastante bien!".


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