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MOEDINHAS AO HAMILTON
por Rafael Ligeiro/Mundo Ligeiro
São Paulo (BR), 16 Jan 2008
Enfim, 2008 chegou. Mas há duas coisas ocorridas no ano passado que teimam em não descer pela minha goela. Primeiro: não foi em 2007 que fiquei bilionário. Uma pena, pois iria usar essa grana para melhorar o mundo - pelo menos o meu iria melhorar demais. Segundo: a presença de Lewis Hamilton na lista dos 50 maiores perdedores da história do esporte britânico, publicada pelo jornal The Times.
Tudo bem. Lógico que o vice-campeonato da temporada passada para Hamilton foi um duro golpe, inclusive ao próprio piloto da McLaren, levando-se em conta que ele esteve muito perto de faturar o caneco. Contudo, considero essa lista uma injustiça. O que será que vai pensar um garoto que, daqui algumas décadas, encontrar o nome de Lewis nessa lista? "Pô, será que ele era tão bom quanto meu tio falou?", questiona. "Bem, acho que é melhor procurar o número do manicômio na lista telefônica para internar o titio...".
Logicamente, até mesmo os grandes ícones das mais diversas áreas tiveram de conviver com críticas. Isso é comum. Contanto, o enfoque dessa pesquisa é errôneo, afinal a impressão para muitos quando se fala em "derrota" é a de que fulano é ruim - e não porque foi superado por um adversário com competência para vencer. Veja bem. O líder da lista do The Times é o ex-tenista Tim Henman, que jamais alcançou uma final de Grand Slam. Mas o cara foi seis vezes semifinalista nos principais torneios do tênis profissional, inclusive quatro vezes em Wimbledon! Será que os maiores perdedores não foram tenistas bem treinados, nos quais eram depositados enorme esperança de torcedores e especialistas no esporte, mas que sequer atingiram quartas-de-final de um Aberto disputado lá na esquina?
Nesse sentido, a lista do The Times pode ser considerada "As 50 maiores derrotas de 50 de nossos esportistas mais populares" ou, até mesmo, "Esses ficaram no quase!". Mas ambas definições ficariam esquisitas. Qualquer uma seria um fracasso para atrair a atenção do leitor. A primeira, por exemplo, parece mais nome que cantor pirado costuma dar ao seu novo álbum quando está numa baita maré de indecisões.
Mais que os erros nas duas etapas decisivas, Lewis Hamilton teve uma participação sensacional na temporada 2007. Desde o início do ano, o inglês excedeu às expectativas. Em diversas ocasiões, superou o companheiro de McLaren. E não era qualquer companheiro de equipe: tratava-se de Fernando Alonso, badalado bicampeão e incontestável talento da Fórmula-1 atual.
No final das contas, The Times e toda a Inglaterra têm motivos para agradecer a Lewis Hamilton. Há muito tempo um piloto da terra dos Beatles e do Genesis não obtinha resultados tão expressivos com constância no certame da FIA. Após a aposentadoria de Damon Hill, ao final de 1999, até a temporada de 2006, quando Lewis garantia o título no último degrau antes da F-1, a GP2, a Inglaterra venceu uma mísera prova: aquele maluco GP da Hungria do ano retrasado, com Jenson Button (Honda). Só em 2007, Lewis faturou quatro! Foram três poles entre 2000 e 2006. Na era Hamilton já são seis. Sozinho, o piloto de Stevenage anotou 109 pontos nas 17 provas do ano passado, média de quase 6,5 pontos por corrida e 350% superior a obtida pelos compatriotas nos sete anos que antecederam sua estréia na categoria.
As discretas marcas inglesas no período Pré-Hamilton ao menos podem ser "camufladas" quando a Inglaterra defende a bandeira da Grã-Bretanha, unindo-se a País de Gales, Irlanda do Norte e Escócia. Desse modo, somam-se ainda as sete vitórias do escocês David Coulthard nos tempos de McLaren - marca que, cá entre nós, Lewis pode acumular até o final do campeonato 2008.
Logicamente há quem possa dizer que o retrospecto de Hamilton só é possível pelo fato dele estar numa equipe grande. É verdade. Mas isso não é demérito. No caso do inglês, de 22 anos, ele mostrou competência para atingir um posto invejável já numa categoria de base - além de estar na hora e locais corretos; compatriotas como Jenson Button e Anthony Davidson, apesar de talentosos, ainda não reuniram todos os ingredientes para obter sucesso nessa receita. Ora falta uma pitadinha de ousadia nas pistas; outrora uma colherinha de resultados; porém o mais complicado mesmo para essa dupla é achar uma panela que não esteja nas mãos de outro cozinheiro...
Contudo, tenho certeza de que o conceito do jornal não abalou em nada a popularidade de Hamilton entre os fãs britânicos de automobilismo. A Hamiltonmania continua em alta e deve ganhar ainda mais força nesse ano. Mas quer saber de uma coisa? Diante da remota conjectura de os súditos de Elizabeth "enjoarem" de Lewis, vamos coletar uma grana para pagar uma passagem primeira-classe Londres-São Paulo (com escala sei lá por onde!) ao fenômeno britânico, além da estadia em um bom hotel.
Vira brasileiro, Luisinho! Vira brasileiro! Embora nosso "Brazil" esteja bem representado na temporada vindoura, talentos como você sempre são muito bem-vindos! Como sou precavido, já estou ajuntando minhas moedas... O que vale não é a intenção!?
23. O número 23 marcou presença na apresentação da McLaren, no dia sete. Presença dupla. Além do carro exibido - e que será usado ao longo do campeonato 2008 - ser o MP4/23, Lewis Hamilton completou 23 anos no dia da apresentação!
Seria um sinal?
Desfecho do Rali. Um absurdo o cancelamento da edição 2008 do popular Rali Paris-Dakar. Não pela direção da prova, que fez o correto ao preservar pilotos, jornalistas e demais pessoas envolvidas no evento. Atitude nobre. Contudo, é lamentável ver que as disparidades religiosas e políticas estão cada vez mais agudas nesse nosso mundão. Ao ponto até mesmo de envolver o automobilismo.
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