Cristiano da Matta em foco

DOBRADINHA BRASILEIRA, MÉRITO MINEIRO
por Rafael Ligeiro
São Paulo (BR), 18 Nov 2002

Tudo bem que a Champ Car nunca passou por tamanha fase de desprestígio, a competitividade do equipamento ajudou e alguns adversários de peso tiveram fraco desempenho na temporada 2002. Mas os mineiros Cristiano da Matta e Bruno Junqueira conseguiram dar ao Brasil a primeira dobradinha verde-amarela na tabela de classificação de uma categoria top do automobilismo mundial. Tal mérito não fora alcançado nem na época dourada do País na Fórmula 1, quando Piquet e Senna espantavam o mundo com shows de pilotagem e dividiam as pistas com feras como Prost e Mansell. Tampouco nas últimas temporadas da Fórmula Mundial, nas quais quase metade do grid era formado por brasileiros.

Da Matta e Junqueira fizeram um grande campeonato. A principal virtude de ambos foi tirar proveito da estrutura de suas respectivas equipes, Newman/Haas e Chip Ganassi. Ambos souberam usar também grande parte do talento que acompanha esses mineirinhos desde a época do kart.

Para Cristiano, esse ano jamais sairá de sua memória. Mais que conquistar o título, da Matta teve consistência durante toda temporada, liderou ao menos uma volta em quase todas corridas e venceu sete etapas. A condição de principal nome ao título não foi contestada por ninguém nas pistas. E a vaga na Toyota, embora seja encarada como prêmio, trata-se na verdade de um desafio. O intercâmbio entre Champ Car e F-1 sempre foi uma manobra arriscada até mesmo para pilotos que partem à categoria da FIA para guiar carro de equipe de ponta - vide Alessandro Zanardi. No momento, excetuando Ferrari, McLaren e Williams, os demais times têm chances remotas de vencer. E Kiki sabe disso. Aos 29 anos, o mineiro é um profissional maduro e vencedor, pretende mostrar capacidade sem pressa e certamente não irá cometer erros semelhantes ao de pilotos que chegam à F1 com pouco mais de 20 anos e excedem seus limites e vontades. É um nome que chegou para ficar!

Ao contrário de Cristiano, Junqueira trocou a Europa pelos Estados Unidos em 2001. E fez uma boa opção. Nesse ano desbancou o aparente favoritismo do sueco Kenny Bräck na Chip Ganassi e venceu duas provas. Rápido nos mistos, também conseguiu uma adaptação fenomenal aos ovais, sendo um dos poucos pilotos da atualidade a desbravar os segredos desses dois tipos de pista. Esse estilo cabe na Champ Car e na IRL - embora o mais provável seja a permanência na primeira, substituindo, com perfeição, Da Matta na Newman/Haas.

E, como não poderia ser diferente, Minas Gerais pode ser considerada a capital brasileira do automobilismo brasileiro... pelo menos enquanto houver nomes como Cristiano da Matta e Bruno Junqueira.