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HOMEM DE GELO OU COMPUTADOR?
por Rafael Ligeiro
São Paulo (BR), 22 Out 2007
Kimi Räikkönen é um piloto tão gélido quanto o inverno de sua terra natal, a Finlândia. Discreto, caladão, não costuma dar grandes amostras de emoção em público. Parece viver em um mundo paralelo, lá onde não existem extremos no estado de espírito. Diferente do companheiro de Ferrari, o brasileiro Felipe Massa, não é capaz de sair correndo do carro e fazer farra com mecânicos após uma vitória. Tampouco é desses que, depois de um abandono, dá empurrões em fiscal de pista ou cospe fogo durante entrevista.
Nas pistas, o enredo é muito semelhante. Räikkönen não costuma exibir o arrojo de gente como Massa, Lewis Hamilton ou Robert Kubica. Às vezes, parece até faltar-lhe combatividade. Contudo, a regularidade é o ápice de sua pilotagem. O finlandês raramente erra. Prova disso é que somou apenas dois abandonos na temporada 2007, nos GPs da Espanha e da Europa, ambos por problemas mecânicos no Ferrari número seis que pilotava. Construiu o título em 2007 com paciência, ponto a ponto, mesmo após ver-se extremamente distante da liderança do Mundial em algumas ocasiões.
Ao contrário de Kimi, seus adversários erraram. E em momentos decisivos. Fernando Alonso espatifou o carro numa mureta de Fuji, antepenúltima etapa do ano, quando parecia ter ao menos garantido um lugar no pódio. Já Hamilton não notou o desgaste dos pneus de seu McLaren em Xangai, ficou preso à brita e abandonou. Em Interlagos, o inglês parou fora da pista após dividir curva com Alonso ainda na primeira volta do GP brasileiro. Caiu da quarta à oitava posição.
No entanto, se engana quem acredita que 2007 reservou apenas alegrias ao finlandês de Espoo. Apesar da vitória na etapa de abertura, em Melbourne, Räikkönen teve uma participação bem discretinha no primeiro semestre. Manteve a bendita regularidade na pilotagem, sim senhor: pontuou em seis das sete primeiras etapas. Contudo, após a bandeirada em Indianápolis, era apenas quarto colocado na classificação, com 30 pontos - nove atrás do terceiro, o companheiro na escuderia de Maranello, Felipe Massa. Lewis Hamilton liderava com pose de soberano, 28 pontos à frente do rival da Escandinávia.
É curioso notar que a reação de Kimi começou no instante em que a Ferrari mais ganhou combatividade frente à McLaren, a partir do GP da França; ao mesmo tempo, Hamilton e Alonso declaravam guerra na equipe de Woking e explodia na imprensa o bafafá sobre espionagem da McLaren a Ferrari. Em Magny-Cours, o finlandês perdeu menos tempo que Massa para ultrapassar retardatários e roubou o triunfo do brasileiro no último terço de corrida. Na semana seguinte, em Silverstone, faturou mais um primeiro lugar.
Apesar de uma "recaída" em Nürburgring - onde anotou uma de suas três poles no ano mas abandonou, com problemas hidráulicos no carro, o finlandês arrancou definitivamente para o título a partir do Grande Prêmio da Hungria. No kartó... ou melhor, autódromo de Hungaroring, terminou em segundo lugar, atrás de Hamilton, até então líder da temporada. Nas seis etapas seguintes, virou o jogo. Conquistou 50 dos 60 pontos possíveis, aproveitamento de quase 84%, com seis pódios (três vitórias, um segundo e dois terceiros). No mesmo período, Alonso anotou 36; Massa fez 35 e Hamilton "apenas" 29.
Que piloto é esse que não esquenta a cuca quando está bem longe dos adversários na tabela de classificação? Que sujeito é esse que não se derrete nem mesmo após conquistar um título que parecia perdido? Quem é o cara que conquista um campeonato que parecia perdido? Esse é Kimi Räikkönen. Um piloto frio e calculista, extremamente técnico, que lembra o jeitão de um ferrarista campeão de Fórmula-1 nos anos 70. E é bom se acostumar com ele.
Líder na hora certa. Agora campeão, Kimi liderou o campeonato 2007 em apenas outras duas ocasiões. A primeira ocorreu após a vitória na etapa de abertura da temporada, em Melbourne. O finlandês perdeu a posição para Alonso na corrida seguinte, na Malásia, mas reassumiu a liderança após o terceiro posto no Bahrein. Lewis Hamilton permaneceu na liderança por 12 etapas, enquanto Fernando Alonso ponteou durante três etapas (Malásia, Bahrein e Mônaco).
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