FUNO!: Formula 1
Augusto Farfus Jr.
em foco

Entrevista

Augusto Farfus Junior AUGUSTO FARFUS JR.
por Rafael Ligeiro/Mundo Ligeiro
São Paulo (BR), 17 Ago 2007

Dois ilustres visitantes apareceram por Nürburgring durante a passagem da Fórmula-1 pelo circuito germânico. Primeiro foi a chuva, que deu as caras no início e no fim da corrida. Essa, no entanto, deu um caráter maluco à corrida e não foi muito bem-vinda pelo circo da categoria - exceção feita, claro, a Markus Winkelhock, alemão da modesta Spyker que aproveitou o toró para ter seus 15 minutos de fama na liderança da prova. Já o segundo estava meio escondido nos boxes da BMW: o paranaense Augusto Farfus Junior.

Um dos principais pilotos do Mundial de Turismo, o WTCC, Farfus levou a desacreditada Alfa Romeo até as últimas duas baterias da temporada passada, em Macau, com chances de título. Desacreditada?! Como assim? Explica-se: a montadora italiana cortou sensivelmente seus investimentos no certame. "Chegar como líder do campeonato até Macau já foi uma vitória para mim", comentou Augusto. "No início do ano ninguém imaginava que teríamos alguma chance".

Ao início de 2007, Farfus trocou a Alfa Romeo pela BMW Team Germany. Salto considerável, afinal, a fábrica de Stuttgart faturou o título do Mundial de Turismo nos últimos três campeonatos. E o brasileiro faz boa analise do trabalho desenvolvido até o momento. "É uma equipe fantástica, estão dando total apoio para que eu me sinta à vontade", ressaltou o piloto.

Aos 23 anos, Augusto já esteve perto de correr na Fórmula-1. Entre muitas conversas - e boatos também! - o brasileiro chegou a ser cogitado para assumir o posto de terceiro piloto na Jordan, em 2004. E assegura que analisaria eventuais propostas de times da principal categoria do automobilismo mundial. "Depende do contrato, das possibilidades", comentou. "Por que não? Sou mais jovem que muitos pilotos da GP2 e com certeza seria uma chance importante na minha carreira".

Confira nessa longa entrevista tudo sobre esse jovem talento das pistas brasileiras no Exterior.

LIGEIRO: Augusto, qual é a análise que você faz da atual temporada no WTCC? O título que quase veio para você no ano passado vai pintar em 2007?

FARFUS: Quem sabe. A BMW venceu os últimos três campeonatos, o que significa que o carro é muito competitivo. O objetivo em minha primeira temporada na equipe é fazer o melhor trabalho possível, além de ajudar a BMW a continuar na liderança do Mundial.

LIGEIRO: Quais são seus adversários mais fortes na atual temporada?

FARFUS: O atual campeão Jörg Müller e Andy Priaulx são fortes concorrentes. A Chevrolet é a surpresa do ano, a cada prova estão mais competitivos. Já a Seat, agora com o carro Diesel, vai voltar a lutar pelo título também!

LIGEIRO: Você trocou de equipe ao início desse ano. Qual é a avaliação que você faz da BMW Team Germany?

FARFUS: É uma equipe fantástica, estão dando total apoio para que eu me sinta à vontade. Espero crescer muito com eles ainda!

LIGEIRO: Em corridas de carros turismo, geralmente é mais comum ver toques entre os carros do que em certames de Fórmula. Mas no Mundial de Turismo (WTCC) tem algum "espertinho" que costuma jogar sujo?

FARFUS: Não. O nível técnico dos pilotos é muito alto e algumas vezes surgem toques, mas fazem parte do jogo. Não tem nenhum "espertinho" não!

LIGEIRO: Recentemente, durante o Grande Prêmio do Canadá de Fórmula-1, o polonês Robert Kubica sofreu um grave acidente que, no entanto, evidenciou a segurança na categoria. Qual é a análise que você faz da segurança no WTCC?

FARFUS: O WTCC também é muito seguro. Nesse ano tive um grande acidente na etapa da França, onde capotei várias vezes na tomada de tempo. Os mecânicos trabalharam a noite inteira e, no domingo, venci a corrida com o carro que tinha batido no dia anterior... Se entrar no YouTube e pesquisar por "Farfus Pau" você assiste o vídeo do meu acidente!

LIGEIRO: Teoricamente, guiar carros de turismo exige menos do condicionamento físico de um piloto que um bólido de Fórmula-1, por exemplo. Nesse sentido, a rotina de preparo físico de um piloto do WTCC pode ser, digamos, mais "amena" que a de um piloto de monoposto? Como está sua rotina de condicionamento físico?

FARFUS: Estou super preparado, talvez nem tanto quando corria de Fórmula pois não tenho mais tanto tempo quanto antes. Nas corridas realizadas no verão, a temperatura dentro do carro chega a quase 75°C! Daí o preparo físico se torna importante.

LIGEIRO: O que você pensa sobre a Stock Car Brasil? Há algumas características de regulamento ou equipamento do WTCC que poderia ser "copiada" na categoria brasileira?

FARFUS: São dois campeonatos completamente diferentes, carros diferentes, o que acaba se tornando impossível qualquer comparação. Fico feliz em ver um campeonato nacional como a Stock com vários pilotos de alto nível e com um espaço legal na mídia. Isso estava faltando para o Brasil.

LIGEIRO: Por falar em Brasil, vencer uma etapa do País no WTCC foi a maior emoção da sua carreira?

FARFUS: Com certeza foi inesquecível. Mas também guardo outro momento: minha vitória no Campeonato Canadense de kart, em 1999. Depois de vencer todas baterias, fui jogado para fora (da pista) na pré-final e acabei largando em último na final. Passei 36 karts e venci a prova. Tenho a gravação dessa corrida e assisto sempre que posso para relembrar esse momento maravilhoso que Deus me proporcionou!

LIGEIRO: Esse é um assunto que não poderia faltar: Fórmula-1. Embora você seja um piloto muito prestigiado no WTCC e mostre-se contente na categoria, você trocaria essas condições por vaga em uma equipe intermediária da F-1 ou, até mesmo, de piloto de testes em um time de ponta?

FARFUS: Depende do contrato, das possibilidades. Por que não? Sou mais jovem que muitos pilotos da GP2. Com certeza seria uma chance importante na minha carreira.

LIGEIRO: Desde o ingresso no WTCC você recebeu algum convite da F-1?

FARFUS: Tive alguns contatos, mas, atualmente, a grande maioria dos jovens que entram na Fórmula-1 levam junto patrocinadores, o que ajuda muito na negociação de uma vaga. Os convites que tive não foram legais no meu ponto de vista.

LIGEIRO: Você poderia comentar algumas dessas sondagens da F-1?

FARFUS: Não ando acompanhando muito isso pois, no meu ponto de vista, tem muita política e a história como aconteceu acredito que poucos sabem.

LIGEIRO: Qual é sua relação com a equipe BMW de Fórmula-1? Você conhece alguém por lá? Já recebeu convite para conhecer a fábrica da equipe?

FARFUS: A BMW Motorsport é uma família, única. No Grande Prêmio da Europa estive lá nos boxes da BMW com eles, acompanhando a corrida. O Mario Thiessen comanda tanto a Fórmula-1 quanto o WTCC.

LIGEIRO: E como é para um piloto estar do outro lado, ou seja, assistir a uma corrida da principal categoria do automobilismo mundial? Não deu vontade de pedir licença ao Nick Heidfeld ou ao Robert Kubica, entrar num BMW e ir à pista?

FARFUS: Com certeza, ainda mais vendo que lá estão vários pilotos que correram comigo e estão andando bem. Hoje, graças a Deus, tenho uma posição muito legal no WTCC com a BMW, mas sem dúvidas que dá vontade (de guiar um carro de Fórmula-1).

LIGEIRO: Aliás, qual é a análise que você faz do rendimento da BMW no atual campeonato de Fórmula-1?

FARFUS: Hoje a BMW é a terceira equipe da Fórmula-1, somente atrás de Ferrari e de McLaren. Eles (da BMW) estão realmente fazendo um grande trabalho na Fórmula-1.

LIGEIRO: O que você acredita que é o diferencial da BMW nessa temporada? Chassi, motor...

FARFUS: O conjunto. A equipe está fazendo um trabalho fantástico. Acredito que não em muito tempo o time (BMW) estará brigando por vitórias.

LIGEIRO: A distribuição de lastro para os primeiros colocados na provas é considerada um das características que contribuem para que o WTCC seja uma categoria bastante equilibrada. Você acredita que essa poderia ser uma "boa saída" na busca por equilíbrio entre as equipes nas pistas da Fórmula-1? Seria viável em termos de aerodinâmica?

FARFUS: Talvez sim, mas é certo que o melhor vença, afinal a Fórmula-1 é uma categoria de performance. Quem sabe ajudaria o espetáculo, mas fazendo isso (lastros aos vencedores na categoria máxima do automobilismo mundial) seria uma forma de tirar o espírito da Fórmula-1. Em nosso caso (no Mundial de Turismo), o lastro é fundamental, pois os carros que correm são completamente diferentes, e regulamento único não seria justo com as fábricas que participam!

LIGEIRO: O que você pensa sobre os campeonatos norte-americanos de Fórmula: a Champ Car e a Indy Racing League. Vale a pena correr nessas categorias? Alguma delas chama sua atenção?

FARFUS: São categorias que gosto, mas acho que as duas saíram perdendo desde quando se separaram. A Champ Car passa por um momento difícil, pois quase todos os pilotos pagam para correr, o que é um pecado. A velha Formula Indy foi uma categoria fantástica e de lá saíram vários grandes nomes do automobilismo!

LIGEIRO: Você chegou até as últimas duas baterias da temporada 2006 disputando o título. Os resultados foram excelentes, levando-se em conta que a Alfa Romeo cortou sensivelmente os investimentos no WTCC. Contudo, perder o título depois de superar tantas adversidades ao longo do ano deve ter sido frustrante. Enfim, qual sentimento prevalece? O que a temporada 2006 acrescentou para sua carreira?

FARFUS: Chegar como líder do campeonato até Macau já foi uma vitória para mim. No início do ano ninguém imaginava que teríamos alguma chance. A temporada de 2006 foi uma lição importante, pois me mostrou que o trabalho duro, com união e dedicação de uma equipe, pode proporcionar resultados fantásticos.

LIGEIRO: Por fim, você é ainda muito jovem, extremamente talentoso e certamente tem muitos anos de carreira no automobilismo. Quais sonhos você pretende realizar no esporte a motor internacional?

FARFUS: Sou um jovem realizado. Graças a Deus tive uma carreira vencedora até aqui, sou reconhecido pelo meu trabalho e hoje vivo daquilo que eu mais gosto de fazer! Meu único objetivo é continuar fazendo o meu máximo e lutando por títulos e vitórias. Continuarei nas pistas até quando sentir que sou um piloto competitivo.


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