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TURMINHA ARROJADA
por Rafael Ligeiro
São Paulo (BR), 22 Set 2007
Que temporada é essa! Tudo bem, tudo bem. Por mais que a Fórmula-1 esteja, há décadas, alçada à incontestável condição de número um no mundo das competições automobilísticas, o bafafá sobre espionagem da McLaren à Ferrari arranhou a imagem do certame. Assim como na política de um país que conheço, nós desconfiamos que ocorrem algumas "coisas" nos bastidores; mas quando essas não recebem vassouradas para baixo do tapete, tornam-se públicas, ai sim podemos concretizar nosso baque! Mas, algo é inquestionável na F-1. Com ou sem tramóia. O atual campeonato é o mais empolgante desde 2003, quando Michael Schumacher, Kimi Räikkönen e Juan Pablo Montoya chegaram à penúltima etapa daquele ano, em Indianápolis, na briga pelo título.
Em 14 etapas realizadas em 2007, Ferrari e McLaren possuem sete vitórias cada. Esse número é igual, por exemplo, ao mesmo período na temporada 2000 - desculpe pelo termo "economiquês". Mas a distribuição de triunfos entre os pilotos é maior no atual campeonato. Há sete anos, Michael Schumacher já tinha faturado seis corridas, contra quatro de Mika Häkkinen, três de David Coulthard e uma de Rubens Barrichello. No atual certame, Fernando Alonso e Kimi Räikkonen possuem quatro vitórias cada; já Felipe Massa e Lewis Hamilton têm três. Além disso, a diferença entre primeiro (Schumi) e quarto (Rubinho) colocados na classificação em 2000 era de 29 pontos, mesma se o campeonato fosse disputado sob o atual regulamento de pontos - adotado a partir de 2002. Presentemente, o líder Hamilton tem 20 pontos a mais que Massa, quarto na tabela. No entanto, muito mais que qualquer marca, 2007 é o ano das ultrapassagens.
Pode parecer curioso comentar isso justamente em uma temporada na qual dez das 14 provas disputadas tiveram como vencedor justamente o piloto que largou na pole position - Kimi Räikkönen (Melbourne e Spa-Francorchamps), Felipe Massa (Sakhir, Montmeló e Istambul), Fernando Alonso (Monte Carlo e Monza) e Lewis Hamilton (Montréal, Indianápolis e Hungaroring). Em outras três ocasiões o vencedor saiu da segunda colocação, ainda primeira fila. Já o piloto com pior posição no treino classificatório a vencer nesse ano foi Kimi Räikkönen: terceiro no grid do GP de Magny-Cours. Contudo, não é a quantidade de ultrapassagens que chama a atenção em 2007, mas sim a "qualidade". Tome por exemplo a de Alonso sobre o companheiro de McLaren, Hamilton, no GP da Bélgica, disputado no domingo passado. O espanhol mostrou grande dose de arrojo ao enfiar o carro prateado número um lado a lado com o do britânico em plena curva Eau Rouge, uma das mais desafiadoras e velozes da Fórmula-1 atual.
Lógico que com a adoção do motor V8, de 2.4 litros, por todas equipes da categoria nesse ano, tornou-se mais fácil contornar a Eau Rouge com pé cravado no acelerador que nos anos anteriores, quando o certame usava propulsores V10. Contudo, a manobra do espanhol foi realizada pouco após a largada, ou seja, com os pneus de seu monoposto ainda "frios". Afinal, por mais que os carros percorram uma volta na busca pelo aquecimento dos compostos antes do procedimento de largada, não dá para atingir e manter a temperatura ideal dos pneus (aproximadamente 90 graus Celsius) em um período tão curto. Com isso, podemos deduzir que o espanhol está motivado e vivinho na disputa pelo caneco de 2007. Aliás, Fernando é uma aposta mais conservadora ao título desse ano. Logicamente, não será moleza o embate com Lewis Hamilton e Kimi continua na briga graças à excelente vitória em Spa. Mas Alonso já mostrou que é um piloto de louvável consistência e derrotou adversários do porte de Michael Schumacher e o próprio Räikkönen, respectivamente nos campeonatos de 2006 e 2005.
Na galeria de ultrapassagens bonitas, destaque também para a de Lewis Hamilton sobre Kimi Räikkönen a poucas voltas da bandeirada no GP de Monza. Não foi apenas ultrapassagem; foi um bote na concorrência. Hamilton passou Kimi após retardar ao máximo a freada à chicane Rettifilo, primeira curva após a reta dos boxes, trecho no qual os pilotos reduzem de quase 350 km/h para aproximadamente 115 km/h. O finlandês não esboçou nenhuma reação até porque certamente via pelo retrovisor o monoposto de prateado muito distante e não esperava aquele ataque. Aliás, Hamilton é bem desse jeitão. Para ele não tem muita distância, tampouco essa história de "por fora" ou "por dentro". O inglês é muito arrojado e quem quiser ver muitas - e bonitas - ultrapassagens na Fórmula-1, deve torcer para o simpático piloto da McLaren largar no fim do grid. É garantia de espetáculo, assim como nosso Felipe Massa, que nas duas ocasiões em que partiu do final do pelotão fez bonito. Na abertura, em Melbourne, Massa largou em 16° lugar e terminou em sexto. Já em Silverstone recebeu a quadriculada em quinto, após partir dos boxes, na 22ª colocação.
Mas se Felipe ganhou 27 colocações em apenas duas corridas - e muito dificilmente não irá figurar entre os pilotos que mais ultrapassaram na F-1 em 2007, outras disputas envolvendo o brazuca chamaram a atenção nesse ano. Em Montmeló, na primeira curva após a largada, ganhou a dividida contra Alonso. Na chuvosa etapa de Nürburgring, Alonso deu o troco em Massa com direito a choque entre monopostos e choramingos do bicampeão. Até mesmo nos deslizes em Sepang, Felipe mostrou algo importante: arriscar ultrapassagem ainda faz parte desse mundo chamado Fórmula-1.
Fechando a lista de ultrapassagens marcantes, eis a de Takuma Sato sobre Fernando Alonso em Montréal. Não que tenha sido uma obra-prima, coisa de cinema. Mas ver uma Super Aguri ultrapassar McLaren não é coisa muito normal...
Pois, é. Essa é uma história que vocês não devem deixar de contar aos seus netinhos.
Pintou o Rei da Bélgica? E Kimi Räikkönen se deu mais uma vez bem em Spa-Francorchamps. Com o triunfo no domingo passado, o finlandês da Ferrari chegou à terceira vitória consecutiva em um dos circuitos mais importantes do automobilismo. Ainda pela McLaren, Kimi venceu as provas de 2004 e 2005 - no ano passado o GP da Bélgica não foi disputado. Com isso, Räikkönen é o segundo piloto com mais primeiros lugares na etapa belga, ao lado de Ayrton Senna (1985, 1988 e 1991) e Damon Hill (1993, 1994 e 1998). Michael Schumacher é o recordista, com seis conquistas (1992, 1995, 1996, 1997, 2001 e 2002).
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