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Opinião

[O]: 2007 Grand Prix of Europe LIÇÕES DE INTERLAGOS E NÜRBURGRING
por Rafael Ligeiro/Mundo Ligeiro
São Paulo (BR), 24 Jul 2007

Brasil e Alemanha são países que criaram forte ligação na Fórmula-1 nos últimos tempos. Pode parecer esquisito, mas não é. Nossos pilotos somam oito triunfos em provas da categoria disputadas em terras germânicas. Nelson Piquet venceu três etapas em Hockenheim, inclusive as realizadas em 1981 e 1987, temporadas em que o brasileiro alcançou dois dos três títulos na categoria. Marca idêntica possui Ayrton Senna: três primeiros lugares, dois em anos de título (1988 e 1990). Já Rubens Barrichello faturou suas duas primeiras vitórias na F-1 justamente na Alemanha. A primeira foi naquela inesquecível prova de 2000, em Hockenheim. Já a outra veio dois anos mais tarde, em Nürburgring. No entanto, mais que qualquer marca, o que de fato mais conecta essa duas nações é o heptacampeão Michael Schumacher.

Além de vencer quatro das 15 edições que disputou do GP Brasil, Schumi esteve presente na "história" de seis brazucas na Fórmula-1. Inclusive Senna. Nas duas primeiras etapas de 1994, antes da morte de Ayrton em Ímola, ambos se mostravam os protagonistas à disputa pelo título daquela temporada. Dado o talento de ambos podemos afirmar que seria uma das rivalidades mais ferrenhas e vitoriosas na história da categoria.

Antes desse lacônico período de concorrência ao tricampeão, Michael já tinha cruzado o caminho de Nelson Piquet e Roberto Moreno. Em 1991, após bela estréia na categoria pela Jordan, durante o Grande Prêmio da Bélgica, Schumacher ganhou um cockpit titular na Benetton. A Mercedes-Benz, marca que defendia no Mundial de Esporte e Protótipos, desembolsou US$ 500 mil para comprar o posto que pertenceu a Roberto Moreno até a etapa belga. Ainda naquele ano, Moreno passou por Jordan e Minardi. Em 1992 guiou uma carroça chamada Andrea Moda e colocou a primeira pá de terra em sua carreira na Fórmula-1 - que foi enterrada de vez três anos depois, na também não muito caritativa Forti Corse.

Ao chegar à Benetton, Schumacher teve como companheiro de equipe ninguém menos que Piquet. Foram apenas cinco corridas juntos, últimas do brasileiro, que decidiu pendurar o capacete na categoria da FIA ao fim do ano. E além da "parceria" com Nelson, o alemão teve apenas brasileiros como companheiros de Ferrari das temporadas de 2000 a 2006: Barrichello, nas seis primeiras, e Felipe Massa, no ano passado. Luciano Burti não "conviveu" com Schumi durante Grandes Prêmios, mas também dividiu espaço com o heptacampeão por Maranello quando atuou como piloto de testes da equipe italiana.

E essa relação entre Brasil e Alemanha na Fórmula-1 ganhou mais um capítulo no domingo passado. Desde a despedida de Michael Schumacher das pistas é inquestionável que os alemães estavam perdendo seu principal representante no certame, contudo a "ficha só caiu" na prova de domingo, em Nürburgring. Prova disso é que mesmo com pilotos na equipe alemã BMW e na Toyota - que apesar de japonesa tem sede em Colônia, não foi nada difícil as câmeras focalizarem torcedores desfraldando bandeiras ferraristas. Alguns, lógico, torcedores da Ferrari oriundos de vários cantos do mundo. Outros, germânicos, que certamente criaram identidade com a equipe italiana durante a estádia de Schumacher por Maranello.

Essa situação lembrou demais o Grande Prêmio do Brasil de 1995, primeira prova de F-1 no País desde a morte de Senna. Aliás, ao contrário do que muitos pensam, o fardo de "ter de substituir a Senna" para Barrichello começou de modo mais incisivo naquele ano. "Tive muita dificuldade em aceitar a morte de Ayrton", afirmou Rubinho. "Sofri muito durante 1995".

Aparentemente, a dor alemã parece bastante inferior à brasileira. Se o Brasil perdeu Ayrton abruptamente, Michael continua vivinho, gozando a vida com as centenas de milhões de dólares que acumulou ao longo de 16 temporadas de Fórmula-1 e vez ou outra graceja lá nos boxes da Ferrari - como na prova alemã. Mas, assim como o Brasil, a Alemanha - que até os anos 50 e 80 viveu à sombra das vizinhas Áustria, Itália e França na categoria - ficou mal acostumada às vitórias e títulos sucessivos de Schumacher nos últimos campeonatos. Ou melhor, bem acostumada! E a corrida de Nürburgring evidenciou que essa é uma fase delicada à Alemanha na Fórmula-1. Sobram bons nomes nas pistas, mas é necessário não se iludir: nenhum ainda reúne condições de suprir a ausência de Michael.

Teoricamente, Ralf Schumacher e Nick Heidfeld seriam os dois principais candidatos a esse posto. Com Ralf e Toyota em fases pouco proliferas, resta Nick. Apesar de fazer da corrida do domingo passado um evento de demolition car, o alemão cumpre excelente temporada, marcada pela regularidade, e tem em mãos um BMW, carro que pode render pontos freqüentemente e alguns pódios ao longo do ano. Vitórias? Salvo alguma evolução espantosa nas próximas corridas, a BMW fica na dependência de abandonos de McLaren e Ferrari, equipes que, até o momento, possuem - disparadas - os melhores carros da temporada.

Olhando à garotada alemã das pistas, fica evidente que a Alemanha tem um "time" promissor. Nico Rosberg, de 22 anos, é um piloto que chegou à F-1 no ano passado com fama de bom de braço e um currículo respeitável nas categorias de base. Teve excelente início, inclusive com volta mais rápida logo na etapa de estréia, em Sakhir, mas, com um problemático carro da Williams ao longo de 2006, não fez muito. Nessa temporada, com um equipamento sensivelmente superior ao da temporada passada, tem um rendimento agradável. Aos 24 anos, Adrian Sutil está restrito à pequena equipe Spyker, mas conquistou grandes resultados em outros certames, como o título de F-3 japonesa (em 2006), além do vice de F-3 européia no ano anterior, perdendo apenas para Lewis Hamilton. Já na equipe alemã BMW, destaque aos pilotos de testes Timo Glock e Sebastian Vettel.

Vettel talvez seja a principal aposta do automobilismo germânico. Antes de chegar à Fórmula-1 pela BMW, no ano passado, já contava com quatro temporadas de Fórmula no currículo, sempre terminando entre os três primeiros colocados na classificação. O alemão, que disputou o GP dos Estados Unidos no lugar de Robert Kubica - que se recuperava de uma torção no tornozelo oriunda do acidente em Montréal, ainda não está pronto para assumir um posto titular na categoria. Mas, com apenas 20 anos, tem bom tempo - além de equipe bem estruturada e talento - para maturar sua pilotagem e virar um dos grandes nomes da F-1. Ao lado de Vettel nos testes pela BMW está Timo Glock. Natural de Lindenfels, Glock estreou na categoria, em 2004, pela Jordan, fazendo barulho. Pontuou logo na primeira corrida, no Canadá, com a sétima colocação. No entanto, a carreira não engrenou e foi parar até na Champ Car. Atualmente, o alemão é nome forte para conquista da atual temporada da GP2. Se o título vier ou não, Timo parece "credenciado" ao regresso à F-1 como titular, embora não pareça ter muito espaço na BMW - quem sabe na Toyota...

Fechando o time alemão, dois pilotos nem tão badalados: Markus Winkelhock e Michael Ammermüller. Aos 21 anos, Ammermüller disputa a segunda temporada na GP2 e como piloto de testes da Red Bull. É mais popular pela volta nas ruas de São Paulo com um monoposto da equipe de Fórmula-1 que pelas conquistas nas pistas, como o vicecampeonato europeu de Fórmula Renault, há dois anos. Já Winkelhock, piloto de testes da Spyker e que estreou na F-1 durante a corrida do domingo passado, teve seus 15 minutos de fama ao liderar o maluco e chuvoso início de corrida. No currículo, destaque para o sexto lugar na temporada 2000 do europeu de Fórmula Renault, à frente de Kimi Räikkönen, além de passagens pela DTM e World Series.

Bons nomes, sim. Mas resta à Alemanha torcer para que algum desses pilotos consiga firmar seu nome no rol dos grandes pilotos da categoria e buscar uma equipe grande. Na Fórmula-1 não basta ser um grande piloto, precisa ter em mãos equipamento de primeira linha. São lições de Ayrton e de Michael. São lições de Interlagos e Nürburgring.


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