2016 em foco

A DITADURA DAS CORES NA FÓRMULA-1
por Rafael Ligeiro
São Paulo (BR), 15 Mar 2016

Que prata, preto, branco e cinza são as cores predominantes na frota de veículos do Brasil não há dúvidas. Contudo engana-se quem pensa que esse é um cenário restrito ao nosso país: trata-se de uma tendência mundial. Segundo o Relatório Global de Cor da Indústria Automotiva em 2015, divulgado em novembro passado pela Axalta Coating Systems, nada menos que 76% dos carros no mundo são revestidos por essas quatro cores.

A princípio, esse assunto pode soar de modo estranho em uma publicação de automobilismo. Mas explico: olhando aos modelos que disputarão a temporada 2016 de Fórmula-1, fico com a impressão de que o fenômeno descrito no parágrafo anterior se estende à categoria. Não devemos nos culpar se, durante a transmissão televisa das provas nesse ano, confundirmos os carros com tons acinzentados como Mercedes, Force India e Haas.

A novata Haas, por sinal, protagonizou um episódio curioso nesse sentido. Em fevereiro do ano passado, o proprietário da equipe, Gene Haas, afirmou à revista italiana Autosprint que gostaria de conceder um destaque aos seus bólidos em meio a “carros de cor cinza e prata que parecem todos iguais”. Citou o amarelo como cor predileta. Diversos colegas cravaram que assim seria a pintura dos monopostos norte-americanos: amarelo. No entanto, logo que o modelo VF-16 foi apresentado, em fevereiro, uma “surpresa”: o esquema visual adotado usava preto, cinza e vermelho. As cores oficiais do time.

Claro que não pretendo ingressar em uma discussão sobre “beleza das cores”. Trata-se de um assunto absurdamente subjetivo. Contudo, é triste ver a Fórmula-1 tão, digamos, comportada. Padronizada. Sem ousadia. Nesse e em vários sentidos. Por exemplo: não consigo encontrar um piloto no atual grid com a esperteza de um Nelson Piquet para desestabilizar a um adversário – ou, até mesmo, a um companheiro de equipe. Por sinal, com exceção ao divertido Daniel Ricciardo, ao sincero Kimi Räikkönen e ao ácido Fernando Alonso, todos parecem iguais em seus discursos. CTRL+C, CTRL+V.

Mas voltemos às cores.

Acredito que os times poderiam investir em tons diferenciados. E, de quebra, que agregassem um valor histórico à identidade visual dos carros. Por exemplo: Por que a McLaren não busca inspiração em sua cor de origem, o laranja?

Nesse sentido ponto positivo à Ferrari. A equipe encorpou o branco ao novo carro, o SFH-16. Nas laterais do cockpit, na carenagem do motor e nas extremidades do aerofólio dianteiro. Trata-se de um layout com história ao time italiano. Para alguns, história negativa, pois a pintura se assemelha a do F93A, modelo utilizado na modesta participação ferrarista na temporada 1993. Naquele ano, o time amargou o quarto lugar no Mundial de Construtores, com apenas três pódios em 16 provas. Contudo, uma simples pesquisa no Google deixa claro que a pintura do SFH-16 é mais semelhante aos carros da equipe nos anos 70, como o campeoníssimo 312T, de 1975, e, sobretudo, o 312B2, de 1971.

Até o fechamento dessa coluna, nenhum representante da Ferrari atribuiu essa pintura como uma referência a qualquer monoposto do passado. Mas convenhamos... Nem precisa! É como o jogador que deseja lançar a bola à área adversária, cruza da lateral e faz o gol. Explicar um lance desses pra quê?!

De qualquer modo, a Fórmula-1 passa por uma “ditadura” cromática. Está distante da criatividade de décadas atrás, quando desfilavam carros coloridos como os da Benetton, amarelo da Jordan, ciano da Leyton House, laranja da Arrows, verde da Jaguar... Muito distante.

Torcida pelo amarelo. Escrevo essa coluna três dias antes dos primeiros treinos da etapa de abertura da temporada 2016, na Austrália. A Renault, que fez a pré-temporada com o carro pintado de preto, promete exibir o layout definitivo ao ano nessa data. Fica a torcida para que seja algo diferenciado. Vale lembrar que o amarelo é uma das cores oficiais da montadora francesa. Seria uma boa.