2010 em foco

VETTEL, RÄIKKÖNEN E A MALUQUICE
por Rafael Ligeiro
São Paulo (BR), 23 Nov 2010

Derrubemos a ambiguidade! A vitória de Sebastian Vettel no campeonato de Pilotos de Fórmula 1 desse ano foi esperada e surpreendente!

Como?!

É bem verdade que tal declaração soa de modo estranho. Aliás, não duvido que alguns já acreditem que o colunista enlouqueceu! Contudo, devemos reconhecer que a campanha de Vettel na recém-encerrada temporada reuniu ingredientes suficientes para ter essa estranha classificação.

Depende apenas do ângulo da abordagem.

Se levarmos em conta que o alemão tinha em mãos o melhor carro da temporada, o RB6-Renault, e que foi extremamente veloz - não à toa cravou dez poles em 19 GPs, a conquista não surpreende. Contudo, a situação muda consideravelmente quando olhamos duas provas antes do término do campeonato. Após o pirotécnico abandono no Grande Prêmio da Coreia do Sul, Vettel ficou a 25 pontos do então líder do Mundial, Fernando Alonso. Para alguns, o jovem germânico já era carta fora do baralho. E estava mesmo difícil, convenhamos.

De fato, o título do alemão da Red Bull nesse ano lembrou muito o obtido por Kimi Räikkönen em 2007. Afinal, ambos tiveram viradas sensacionais na reta final dos respectivos campeonatos. Assim como Räikkönen, Vettel precisou vencer as últimas duas provas do ano para sagrar-se campeão.

Evidentemente, é preciso ressaltar uma pequena diferença: o caminho do finlandês na disputa pelo caneco era ainda mais complicado que o de Vettel em 2010. Ele teve de descontar 17 pontos de Lewis Hamilton num período em que o sistema de bonificação conferia dez pontos ao vencedor. As sete posições a seguir recebiam, pela ordem, oito, seis, cinco, quatro, três, dois e um pontos.

Em conta os atuais moldes de pontuação, seria como se Räikkönen tivesse entre 41 e 42 de desvantagem ao inglês, então estreante na Fórmula 1.

Há mais duas semelhanças interessantes entre as conquistas de Kimi e Sebastian. Primeira: a "trabalheira" que tiveram para superar seus companheiros de equipe. Em 2007, o finlandês ficou 42% da temporada atrás do team-mate de Ferrari, Felipe Massa, na classificação de Pilotos. Já Vettel figurou - pasme - 63% do campeonato 2010 atrás de Mark Webber.

Segunda semelhança: não constaram assiduamente na primeira colocação da classificação de Pilotos ao longo dos anos de suas conquistas. Räikkönen liderou durante três de 17 Grandes Prêmios; Vettel somente um de 19. E justamente no que era necessário para conferir-lhe o caneco: o último, em Abu Dhabi.

Além desses comparativos, vale ressaltar a forte alternância presente na disputa pelo título de Pilotos em três dos últimos quatro campeonatos. Exceção feita, lógico, a 2009, quando a Brawn tirou da prancheta um foguete e Jenson Button liderou o certame de ponta-a-ponta.

Em 2007, quatro pilotos constaram ao menos uma vez como primeiro colocado da classificação. Houve sete trocas na posição - em 17 Grandes Prêmios. No ano seguinte, novamente um quarteto ponteou; foram cinco trocas em 18 corridas. Já em 2010, os números foram ainda mais atraentes aos fãs de disputas: seis pilotos figuraram no primeiro posto do Mundial. Aliás, em 19 corridas, foram nada menos que dez trocas na liderança.

Logo há quem raciocine: "E como pode ter gente que afirme que a Fórmula 1 está monótona?".

De fato, faltam disputas por posições e ultrapassagens em algumas corridas. Esse, aliás, não é um problema recente. Já faz um bom tempo que a FIA mexe no regulamento da categoria na busca para facilitar os adiantamentos: entra pneus sulcados, voltam os slicks, diminuem o aerofólio traseiro, aumentam o aerofólio dianteiro, proíbe-se reabastecimento nas provas, mandam Hermann Tilke fazer circuitos "mirabolantes"... Contudo, ironicamente, esses GPs de marasmo não foram capazes de tirar alternâncias e emoções nas disputas pelos títulos de 2007, 2008 e, sobretudo, 2010.

Eis aí mais uma ambiguidade. Mas, por favor, não digam que maluco é quem escreve!