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DAVI, GOLIAS E RÄIKKÖNEN
por Rafael Ligeiro/Mundo Ligeiro
São Paulo (BR), 16 Jan 2008
O automobilismo nos ensina diversas lições de vida. Uma das mais interessantes é a de que não devemos subestimar ninguém em situação adversa. Vide a decisão da temporada 2007 de Fórmula-1. Kimi Räikkönen foi buscar o caneco quando muitos colegas da imprensa davam, já após a quadriculada em Xangai, causa perdida para o lacônico escandinavo.
Porém, aprendi bem cedo a respeitar o que parece improvável. Aliás, vivi um episódio bem interessante com esse mote.
Até 2002 morei ao lado de uma oficina de carros de corrida. Era um passatempo olhar as mais diferentes máquinas de corrida chegarem lá no "lombo" de um guincho, embora, nos últimos anos, tivesse apenas um Golzinho de categoria regional. O dono do bólido era um sujeito que irei chamá-lo apenas de Pedrão.
Na verdade, o Pedrão não era somente o dono da criança. Era o faz-tudo do time: saia com a pastinha em baixo do braço para buscar patrocínio, polia o capacete, preparava o motor... E se irritava constantemente com a menor falha no propulsor ou, creio eu, até mesmo quando notava que os pneus eram redondos. Em uma dessas "crises" quase desceu a marreta no pobre veículo. A turma do "deixa disso" impediu o assassinato.
Apesar do gênio forte, o Pedrão era um cara bacana. Curioso é que ele costumava me contar as c***das que cometia nas pistas com muito bom-humor. Certa vez, ele estava numa pindaíba danada e não disputou os treinos. Pior é que deixou para levar o carro apenas no domingão de corrida, dia em que ficou sem caminhão para transportar o carro até Interlagos. Ele contou que pôs placas falsas no carro, soltou a bota nos 20 e tantos quilômetros de trajeto até o autódromo, fugiu de qualquer lugar onde suspeitasse haver "fiscais do DSV" e... Ufa, chegou em cima da hora da corrida! Não me perguntem como ele superou qualquer tramite, sobrepôs-se a qualquer lei... Mas fato é que ele abandonou logo na segunda curva, com o motor do carro a ponto de explodir...
"Se eu soubesse que ia dar uma b***a dessa, tinha ficado em casa!", resmungou.
Apesar do jeitão divertido, o Pedrão não suportava de modo algum um de nossos vizinhos. Era o "Jorginho", outro amigo meu, um figura com pouco mais de metro e meio de altura, fã incondicional de boxe. Aliás, ele passou o primário inteirinho afirmando a todos que queria ser boxeador "quando crescesse", mas, como nunca atingiu o peso mínimo para ingressar no esporte, preferiu se dedicar às aulas de inglês - creio para entender o que o ídolo Rocky Balboa falava nos filmes. Nunca soube o motivo da discórdia entre o Pedrão e o Jorginho. Mas desconfio que foi mulher, estelionato, furto, time do coração ou preferência política.
Lembro que certa segunda-feira, o pentelho do Jorginho pendurou na campainha de minha casa. Era umas seis e meia da manhã. Acordei grogue, mas quem sabe ele não tinha algo importante a avisar?
"Você não acredita no que vi lá na 'rua de cima'?", disse, com certo ar de desdenho. "O asno do Pedrão arrebentou aquela carroça na corrida de ontem!".
Fiquei chocado. O Pedrão era um desses caras que pareciam eterno! Sua morte era uma grande perda ao automobilismo brasi... Mas, espera aí! Vejo um guincho de uma seguradora virando a esquina. Ao lado de um motorista com cara de confeiteiro em filme francês vejo o Pedrão, com o maior jeitão de quem estava disposto a metralhar quem estivesse à frente. Fosse essa pessoa sua mãe, o Presidente da República ou o Papa. Atrás do veículo, claro, o Gol, com a frente em frangalhos.
O veículo parou. Pedrão pulou, jogou a grana no banco. Nem agradeceu. Só pediu para o confeiteiro metido a motorista descer logo o Gol. Ou o que restava dele. De repente, o Jorginho, sem dó, solta:
"Além de não ganhar uma corrida desde a época do Fangio, ele faz uma dessas...".
De fato, o Pedrão não ganhava nada há muito tempo. Lembro de alguns minguados troféus numa prateleira da oficina. Uns de segundo lugar, outros de terceiro. Agora, de primeiro? Talvez tivesse sido desintegrado, abduzido ou arrebatado. De qualquer modo, era uma hora nada boa para comentar o desempenho em pista de nosso Pedrão do Brasil! Vi apenas ele ranger os dentes e ficar com olhos mais fulminantes do que os de um serial killer. Sem esquecer de uma veia na testa do sujeito, que saltou como bola de basebol rebatida a toda potência.
"Você vai ver, seu infeliz! Você vai ver!", ameaçou ao Jorginho.
Sinceridade: nunca vi - e escutei - o Pedrão trabalhar tanto como naqueles dias. De madruga, escutava o martelinho desentortando a frente do Golzinho. Uma acelerada aqui, outra acolá. Dois dias depois, o carro estava novamente bonitão. E o Pedrão, agora, com cara de figurante de filme do Zé do Caixão. Dormiria no meio da rua, se lá tivesse um travesseiro.
Umas semaninhas passaram e o que parecia improvável aconteceu: o Pedrão ganhou uma corrida, com direito a pole position e todas voltas na liderança. Lembro dele chegar à oficina, dessa vez, com ar de realização semelhante ao de jogador que marca um gol na decisão por pênaltis quando volta à presença dos companheiros de equipe no meio-de-campo. Mesmo assim, logo ficou sério quando se dirigiu a mim:
"Oi! Você viu aquele f.d.p. do seu amigo?", perguntou. "Quero esfregar meu troféu na cara dele e depois enf...".
Ops, escapamos de um palavrão? Que nada! Ele viu o algo saindo de casa...
"Olha ele aí!", berrou Pedrão, que partiu na direção dele e colocou o caneco perto do rosto do Jorginho. Novamente, Jorginho se mostrou rei na arte de falar coisa errada, na hora errada.
"Pô, que bacana!", aliviou. Ou pelo menos, era a impressão. "Se você me falar qual posto de gasolina está dando essa m***a eu vou abastecer lá!".
Para que, Jorginho? Para quê? Pedrão se enfureceu mais que touro em Madrid, fungou e partiu para cima do pobre sujeito. Tive a impressão de que a 3ª Guerra Mundial começava ali. Ao invés de pancadaria, começou um corre-corre incrível iniciado nem preciso afirmar por quem.
Confesso: nunca vi homens, exceto a bordo de algo motorizado, atingir tamanha velocidade. Os primeiros 100 metros foram tranqüilamente percorridos abaixo dos nove segundos, inclusive pelo Pedrão, que na época, graças a uma dieta rica em lipídeos, exibia uma pança saliente e mais de 120 quilos distribuídos em 1,70 m de altura.
Perdi-os de vista após descerem a rua. Não seria nem maluco de correr lá para tentar evitar confusão pois, geralmente, sempre sobra chute aqui e sopapo ali para os pacifistas. Preferi esperar para tomar carona com algum carro de passagem: uma ambulância, viatura policial ou do manicômio, carro de reportagem ou do tiozinho que vende pamonha. Esperei três minutos de um round no boxe profissional - mais um de descanso - para ir até o ringue.
Chegando lá, fiquei surpreso. O Jorginho não estava lá e o Pedrão, totalmente cansado, estava apoiado na mureta de uma casa, enquanto uma senhora saía no quintal ajeitando os óculos e trazendo, creio, água com açúcar ao brutamonte. Ele sangrava um pouco pela boca, porém nada que lembrasse filme do Bruce Lee ou fosse capaz de tirá-lo de nossa dimensão.
Ainda naquele dia, ambos passaram umas quatro horas na delegacia. B.O. feito, cada um para o seu lado: Pedrão na oficina e o Jorginho, que antes de conversar com o delegado deu uma passadinha na farmácia para cuidar dos olhos roxos e inchados, na cama de sua casa, sob paparicos de mamãe.
Desde então, não subestimo a ninguém. Nem Räikkönen. Tampouco Davi ou Golias.
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