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UMA BORRACHA ATÉ QUE VAI BEM
por Rafael Ligeiro/Mundo Ligeiro
São Paulo (BR), 31 Out 2007
Um ano para esquecer. Essa é a definição mais comum e eficiente para a discreta participação da Honda na temporada 2007 de Fórmula-1. O modelo RA107, projetado no início do ano, é um latente exemplo de fracasso na categoria. Fosse em circuito travado ou de alta média de velocidade por volta, o rendimento do carro era igualmente enfadonho. Aliás, se Rubens Barrichello e Jenson Button não fossem os bons pilotos que são, não tenho dúvidas de que a equipe de Brackley teria amargado resultado ainda pior que o oitavo posto no Mundial de Construtores.
Porém passar uma borracha - ou corretivo, se preferir - em 2007 não é exclusividade da Honda. Após o Grande Prêmio do Brasil, essa é, com certeza, a sensação do pessoal da McLaren.
É bem verdade que o time faturou oito vitórias e chegou a ter o carro mais competitivo em várias etapas. Seus pilotos figuraram em 15 dos 17 GPs do ano na liderança do Mundial de Pilotos. Mas do que tudo isso adiantou? Perder o título na última etapa de uma temporada já é um duro golpe a qualquer equipe e piloto. Imaginem então no caso da McLaren, que passou o segundo semestre no fio da navalha por conta da espionagem à Ferrari, escapou de uma punição ainda maior que a retirada dos pontos no Mundial de Construtores e viu seus pilotos se digladiarem dentro e fora das pistas. De quebra, um time que não conseguiu colocar um bendito sujeito para puxar Lewis Hamilton de canto nos boxes e sugerir: "Garoto, faltam duas provas e você só precisa de quatro pontos. Pega leve, Luisinho. Pega leve!".
Mas 2007 não reservou apenas pesadelos à McLaren. Ao menos Ron Dennis poderá dizer que foi nesse confuso ano que, em um de seus carros, Lewis Hamilton surgiu para a Fórmula-1. Apesar do nervosismo e dos erros nas etapas de Xangai e de Interlagos, o inglês fez uma grande temporada, excedeu às expectativas sobre ele ao início do ano e já é nome forte para a disputa pelo título de 2008. No entanto, de qualquer maneira, fico com uma dúvida. Cruel dúvida. O que, de fato, causou a "pane" no carro de Hamilton ainda nas voltas inicias do GP brasileiro?
Ainda durante a corrida, pouco após o incidente, a McLaren atribuiu o ocorrido a uma falha no câmbio do carro número dois. Curiosamente, também no domingo, Lewis Hamilton afirmou ao jornal canadense La Presse, que o monoposto teria entrado em ponto morto após resvalar, acidentalmente, o dedo no botão usado para "reiniciar" o carro. Sistema que, segundo o próprio vice-campeão de 2007 controla o câmbio do monoposto. Ambas versões me deixaram curioso sobre alguns detalhes do funcionamento desse aparato. Portanto, acionei o amigo Augusto Farfus Jr., piloto brasileiro do Mundial de Turismo (WTCC) e que talvez nem fosse necessário dizer que conhece muito melhor um carro de Fórmula-1 do que esse colunista.
Fiquei espantado após Augusto comentar que, desde que o piloto aperte os botões corretos, um carro de Fórmula-1 é capaz de ser "reinicializado" em menos de um segundo. Diante disso, por que o monoposto do Lewis demorou tanto para regressar ao ritmo normal? "Não sei porque o carro demorou a voltar a andar, provavelmente o Hamilton não percebeu que o carro tinha entrado no 'antiestalo'", disse Farfus.
O antiestalo é um sistema que impede que o motor de um Fórmula-1 "apague" depois de uma abrupta queda em suas rotações. O sistema geralmente é acionado em ocasiões como uma rodada ou quando o piloto tira o pé mais rapidamente que o comum da embreagem, algo típico em saídas de pit stop.
Contudo, como 2007 é um ano em que as coisas pelos lados da McLaren parecem extremamente confusas, a versão de Lewis foi negada por um porta-voz do time de Woking na terça-feira posterior ao Grande Prêmio. Voltaram à primeira hipótese do domingão, expedida pelo próprio time britânico. Seria uma tentativa de preservar o inglês, tão querido lá na equipe de Ron Dennis, cuja estadia foi a única coisa para a McLaren se orgulhar nesse ano?
Essa, entretanto, não é a única questão. Será que alguém mentiu? Foi o pessoal da McLaren? Foi Hamilton? De fato o problema com o carro teria começado com falha no câmbio e Hamilton, no desespero, se atrapalhou com os comandos? Os companheiros do jornal canadense exageraram? A CPMF vai desaparecer? Será que o Corinthians escapa dessa? Sinceramente, não sei. Prefiro ficar com outro pitaco esperto do Augusto: "Só Hamilton e a McLaren sabem o que causou o problema em Interlagos". Nada diferente de muitas outras coisas ocorridas nessa temporada, que ficaram entre quatro paredes de boxes - exceto as que aconteceram em lojinhas de fotocópias. Aliás, o pessoal de McLaren e Honda deveria passar na papelaria e comprar umas três dúzias de borrachas para apagar 2007...
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