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OUTRO ARG X BRA: SERÁ QUE SAIU PANCADARIA?
por FUNO!
Buenos Aires (AR)/São Paulo (BR), 09 Mai 2007
Quando o assunto é Argentina x Brasil, é difícil afastar-se do futebol. Mesmo neste papo, onde o automobilismo é a matéria principal. Mas aqui não se fala nem de Maradona e Pelé, nem de brigas esses ídolos dentro ou fora dos estádios. A "dinâmica" - então - visa verificar as opiniões de desses países sobre o próprio automobilismo e poder aprender sobre o "outro" automobilismo. O artigo é interessante, porque tem como objetivo chegar a um analise final com a dupla-estratégia de falar e escutar.
Rafael Ligeiro, jornalista paulistano, é webmaster de Mundo Ligeiro e colunista de diversos sites segmentados em esporte a motor da América Latina e da Europa. Maximiliano Catania, portenho, é webmaster de FUNO!, site de história e estatística da Fórmula-1.
Depois de doze perguntas muito investigativas de Rafael - onde Maximiliano considerou os pontos positivos e negativos do automobilismo argentino, o assunto foi conhecer mais um pouco o esporte a motor "tupiniquim", que não é divulgado - segundo o portenho. O paulistano teve muitos pontos para elogiar e criticar do automobilismo brasileiro, em outra dúzia de respostas imperdível.
Primeiro tempo. Brasil pergunta. Argentina responde.
LIGEIRO: A Argentina já teve nomes como Juan Manuel Fangio, Froilán González e Carlos Reutemann na Fórmula-1. Mas há um bom tempo pilotos argentinos não chegam à categoria para brigar por vitórias e títulos. Você percebe uma expectativa muito grande do torcedor argentino para o surgimento de um novo ídolo na F-1 ou, de certa maneira, perdeu-se o interesse pela categoria?
CATANIA: Infelizmente, e digo isto com muita saudade, o torcedor argentino tem esperança de voltar a ter um argentino no grid da Fórmula-1 sim, mas tudo o que acontece faz que ele pense que é muito difícil. Nós somos um país com muita cultura de F-1. O automobilismo no geral é muito seguido por nós e pela mídia, mas a falta de patrocinadores nacionais e internacionais faz com que nós vivamos neste "jejum" de representantes argentinos na Fórmula-1. Agora, os jovens pilotos argentinos bons de braço não vão à Europa, caminho obrigatório para ter uma vaga na maior categoria do automobilismo. Eles, sem dinheiro, vão correr em categorias nacionais como Turismo Carretera e TC2000 mesmo.
LIGEIRO: Quais fatores você acredita que são determinantes para que a Argentina não consiga revelar tantos talentos para o automobilismo internacional quanto o Brasil?
CATANIA: Primeiro, parece que vocês têm uma escola séria. Aqui não há uma escola desse tipo, ou pelo menos não conheço uma. Segundo, vocês têm, nos últimos 30 anos, um bicampeão (Emerson Fittipaldi), dois tricampeões (Nelson Piquet e Ayrton Senna) e pilotos como Rubens Barrichello e Felipe Massa. Eles representam uma chave muito importante para o automobilismo internacional. Nós, depois de Carlos Reutemann - que deixou a Williams, enfrentado com esse time - não tivemos essa sorte. Terceiro, o Brasil tem maior população. De fato, os brasileiros representam um grande mercado para as grandes empresas nacionais e internacionais. Se você patrocina um brasileiro, tem uma galera de 188 milhões de pessoas. Nós (da Argentina) somos 40 milhões.
Quarto, há grandes empresas brasileiras, como Petrobras, que ajudam o automobilismo brasileiro e isso é bacana; na Argentina, não há empresas assim para patrocinar pilotos de categorias de base - a YPF fazia isso antes, quando era estatal, mas agora é da espanhola Repsol. Contudo, há empresas interessadas aqui, mas em outras categorias - por exemplo, a prova da Argentina no WRC é possível e há pilotos argentinos lá.
Quinto, a Argentina viveu dez anos com o dólar de "moeda nacional", de 1991 a 2001. Isso fez com que pilotos argentinos fossem para Europa sem muito esforço, e agora as coisas não são assim...
LIGEIRO: Quais nomes da atual geração de pilotos argentinos você acredita que poderão chegar e fazer sucesso na Fórmula-1?
CATANIA: Veja, eu tinha esperança com o José María López, um bom piloto que esteve no time Renault (até 2006) como test-driver, e na GP2. Agora passou ao TC2000... Os outros pilotos bons de braço, como Matías Rossi, Gabriel Ponce de León também estão no TC2000. Só espero que Josito di Palma e Lucas Benamo tenham uma oportunidade na Europa.
LIGEIRO: Uma impressão que fica é que muitos pilotos argentinos, assim como alguns brasileiros, visam apenas a Fórmula-1 enquanto estão em categorias de base na Europa e perdem oportunidades de disputar outras campeonatos importantes, como Champ Car e Indy Racing League. Você pensa que os argentinos deveriam valorizar mais essas categorias norte-americanas?
CATANIA: É verdade. O problema é que o Brasil teve Emerson Fittipaldi na Fórmula Indy, e isso atrai brasileiros. Mesmo Hélio Castroneves, Cristiano da Matta, Bruno Junqueira, têm sido grandes vencedores nos Estados Unidos. Nós tivemos pilotos vencedores lá? Não. A escola brasileira também parece ensinar mais caminhos para que seus alunos alcancem a Fórmula-1: Europa, Estados Unidos... Na escola argentina, Europa é a única opção.
LIGEIRO: Há alguns anos o sul-americano de Fórmula-3 conta com um grid composto praticamente apenas por pilotos do Brasil. Você percebe alguma iniciativa na Argentina para que talentos do país partam para a F-3? Acredita que a Argentina poderá voltar a rivalizar o Brasil nesse campeonato?
CATANIA: A Fórmula Renault Argentina, que é uma categoria de base muito boa, fez que os pilotos novos virassem para aí, e não para Fórmula-3 sul-americana. Não percebo iniciativas desse tipo, por causa de que os pilotos que deixam o kart, vão direito para Fórmula Renault. Assim, vejo que ficará difícil voltar a existir essa rivalidade entre Argentina e Brasil na Fórmula-3.
LIGEIRO: O que você pensa sobre a relação entre TC2000 e Stock Car Brasil?
CATANIA: Penso que a ligação é excelente. São duas categorias com carros muito velozes e adoro muito isso. Os pilotos são profissionais, com bom currículo. Eu tive oportunidade de ver uma corrida de Stock Car V8 no Autódromo Oscar Alfredo Gálvez em 2005, quando fora a segunda edição dos 200 Quilômetros de Buenos Aires. Foi uma festa.
LIGEIRO: No Brasil, o TC2000 é um campeonato bastante elogiado e com boa divulgação na mídia segmentada em automobilismo. Qual é a receita do sucesso do TC2000?
CATANIA: A receita do sucesso é que está bem organizada, graças a Deus. As grandes fábricas (Ford, General Motors, Honda, Toyota, Renault) percebem isso e investem no TC2000. O nível dos carros melhorou ainda mais nos últimos cinco anos. Quando uma categoria é séria, os patrocinadores não estão longe; e agora - com isso que contei antes, o TC2000 está recrutando pilotos jovens com vontade de vencer, mas já com muita experiência no currículo.
LIGEIRO: Depois do acidente do Gualter Salles, em etapa da Stock Car Brasil em Buenos Aires, no ano passado, criou-se a impressão de que o circuito, de certa maneira, é ineficiente no quesito segurança. Qual é a avaliação que você faz de Oscar Alfredo Gálvez e outros circuitos da Argentina, em termos de segurança e estrutura?
CATANIA: O nosso país está em crise em muitos quesitos; a segurança é um deles. No esporte a motor, muitos circuitos não são seguros. Isso já foi dito pelo Cacá Bueno, quando ele corria no TC2000, em uma entrevista que não esqueço, em 2000 ou 2001: "Eu adoro muito o automobilismo argentino, mas é muito triste que circuitos como Mar del Plata não estejam em condições, que o asfalto esteja com problemas aqui e acolá, e essas coisas". Gostaria um dia que os cartolas do automobilismo argentino fizessem algo neste quesito.
LIGEIRO: Você acredita que com o interesse de diversos países com grande potencial financeiro e publicitário à F-1, como o Oriente Médio, em sediar corridas da categoria, a Argentina pode voltar a sediar uma etapa da F-1?
CATANIA: Não, estou seguro que não, e isso da estrutura dos circuitos argentinos não ajuda não; mas a Pandora quando abriu uma caixa onde se encontravam todos os males que desde então se abateram sobre a humanidade, não deixou sair o que mataria a esperança...
LIGEIRO: Embora nunca tenhamos nos enfrentado em final de Copa do Mundo, na F-1 já brigamos por título. Em 1981, Carlos Reutemann e Nelson Piquet lutaram ponto-a-ponto pelo campeonato. Até hoje como é a repercussão da disputa Reutemann/Piquet entre os fãs de automobilismo na Argentina? Você pensa que se Reutemann tivesse faturado aquele título, a busca pelo automobilismo na Argentina seria ainda maior?
CATANIA: Sim, estou seguro disso. Na época em que Carlos estava no automobilismo, havia outros pilotos conterrâneos na F1 graças a ele. Depois, já nada seria igual. Sobre a repercussão, ainda é importante. Quando um repórter fala com Reutemann sobre automobilismo - não esqueça que agora ele é político, sempre perguntam sobre a rivalidade com Piquet. Mesmo recentemente, em 2006, o santafesino foi para a fábrica de Williams e teve uma conversa com Frank Williams, 25 anos depois do GP de Las Vegas.
LIGEIRO: Quando o assunto é automobilismo, quais fatores mais diferenciam a Argentina em relação ao Brasil? E os que mais se assemelham entre as duas nações?
CATANIA: O caráter dos dois padrões de pilotos é semelhante: latinos, velozes, queridos pela gente. A diferença é maior entre as duas escolas: no Brasil há um projeto - creio - para ajudar os jovens das categorias de base para acompanhá-los passo a passo rumo à glória da F-1. Aqui, não há um projeto assim.
LIGEIRO: Vamos a uma suposição: última etapa do Mundial de Fórmula-1. Um piloto do Brasil está em segundo lugar e precisa da vitória para ficar com o título da temporada. À frente do brasileiro está um argentino, que não tem mais chances de vencer o campeonato. O que aconteceria nessa situação: você torceria pelo compatriota ou, diante da possibilidade de ver um (sul-)americano campeão, deixava aflorar o "lado continental" e torceria pelo brazuca?
CATANIA: Vou responder por mim, não por meus conterrâneos. Creio que a rivalidade Argentina x Brasil é futebolística, e ainda assim é tonta demais. A gente que está enferma por causa dessa rivalidade, isso é um problema deles. Seguramente vou torcer pelo argentino nesse campeonato, mais isso não tem nada a ver: eu vou torcer pelo brasileiro se eu gosto do seu caráter. Sempre foi assim para mim, desde 1991 que eu acompanho a F-1; o talento não tem bandeiras. Espero que você pense assim também!
Segundo tempo. Argentina pergunta. Brasil responde.
CATANIA: O que você pensa sobre essa pressão que Rubens Barrichello levou durante muitos anos na era pós-Senna?
LIGEIRO: A pressão sobre o Rubinho foi algo extremamente comum. O torcedor brasileiro é muito exigente e, até certo ponto, mal acostumado. Aliás, não é para menos: o País faturou oito títulos na Fórmula-1 e teve três dos maiores nomes da história do automobilismo em apenas 20 anos. Em 1994, havia uma expectativa muito grande para que o Ayrton dominasse a Fórmula-1. Quem assistiu as provas do campeonato de 1993 sabia que o Ayrton estava no auge da carreira. Ele parecia um piloto que estava sempre em evolução. O Rubinho foi muito valente em continuar na Fórmula-1 e assumir toda essa pressão, no entanto pisou na bola porque abria demais a boca para falar o que gostaria que acontecesse para sua carreira. A torcida confundia e achava que o Barrichello estava prometendo resultados. No Brasil, o melhor que um piloto ou esportista que assume essa responsabilidade de carregar o País sozinho em uma modalidade é expor pouco seus sentimentos. Aqui (no Brasil), na maioria das vezes, "quero" vira "será assim". E por mais talento que tivesse o Rubinho, não dava para fazer milagre com aquele bagulho da Jordan.
Hoje, o Barrichello é um piloto com uma lista de serviços prestados pelo automobilismo brasileiro. Ele conseguiu dois vice-campeonatos e é o quarto maior pontuador da história da Fórmula-1. Mas para a maioria da torcida brasileira, essas marcas, infelizmente, não importam.
CATANIA: Quais são as cinco categorias mais importantes do automobilismo brasileiro?
LIGEIRO: Bem, isso seria bem mais fácil para responder em 2002, quando surgiu a Fórmula Renault e outras categorias bacanas. Mas vamos lá. A Stock Car é incontestavelmente a número um, muito embora esse campeonato pudesse ser ainda melhor. Depois, pela ordem, Fórmula-3 sul-americana (que hoje é praticamente F-3 brasileira), Fórmula Truck, Copa Clio e Pick-up Racing.
CATANIA: Continua no Brasil a divisão por causa da rivalidade entre Senna e Piquet? O que você opina sobre rivalidade?
LIGEIRO: A rivalidade continua. Mas quando falamos de torcida, devemos dividi-la em dois grupos. O primeiro é dos comodistas, formada por gente que só assiste automobilismo quando brasileiro está na frente. Entre esses, grande vantagem para o Ayrton, que além de piloto extraordinário, cativava as pessoas. O Nelson também foi um piloto fantástico, mas como a relação com a mídia brasileira era instável, passava a impressão de que ele era mais vilão que mocinho. Já o segundo grupo é um pessoal que acompanha automobilismo com freqüência, corrida-a-corrida, e não se deixa levar pela opinião de ninguém. Aí o negócio é mais equilibrado, porque se reconhece que, nas pistas, Senna e Piquet foram gênios da mesma magnitude e que só ajudaram nosso esporte a motor.
CATANIA: Parece que os "tupiniquins ao volante" têm torcedores de muitos países, não só do Brasil. Isso não acontece com pilotos de outras nações. Qual é a sua opinião nesse quesito?
LIGEIRO: Isso ocorre porque o retrospecto dos pilotos brasileiros em categorias internacionais nas últimas décadas é dos melhores. Somente três países possuem títulos em todas categorias top do automobilismo mundial: Inglaterra, Estados Unidos e justamente o Brasil. Há um respeito muito grande com os pilotos do Brasil no exterior porque qualquer caminho que eles escolham, estarão longe de seu país, correndo atrás de um sonho longe de casa. Exemplo é o Nelsinho Piquet, que tinha uma situação confortabilíssima aqui no Brasil, mas arrumou as malinhas dele para a Inglaterra. Lógico, não vamos fabricar mito por causa disso... Lá na Inglaterra ele viveu bem também, mas não com os mesmos paparicos que teria no Brasil.
No exterior, os brasileiros defendem equipes e marcas de países que não tem muita tradição no automobilismo. Quando vencem, quase que adquirem dupla-cidadania. O exemplo mais clássico disso é com a torcida japonesa. Apesar do nível de pilotos deles ter melhorado e a geração comandada por Takuma Sato não ser desprezível, o Japão ainda está anos-luz de ter um piloto com chances de se firmar entre os grandes no automobilismo top. Há muito tempo eles sabem disso. Por isso sempre adotaram um piloto, como Piquet, Senna e Gil de Ferran, brasileiros que venceram campeonatos representando a marca japonesa Honda.
CATANIA: O automobilismo brasileiro não é muito conhecido em outros países, mesmo na Argentina. Por quê?
LIGEIRO: Não somos totais desconhecidos, nossa divulgação pelo mundo está melhorando vagarosamente. Mas reconheço que poderia estar bem melhor. Culpa de um problema crônico no País. O brasileiro não se valoriza. Logicamente, vejo que nosso automobilismo já teve dias melhores, com mais categorias interessantes. Mas campeonatos como Stock Car V8 e Fórmula Truck estão em um bom nível quando o assunto é automobilismo no continente americano. O problema é que brasileiro não confia no próprio taco e há um bando de puxa-saco que rodeia os autódromos brasileiros muito mais preocupado em como vão sair na foto ao lado do piloto predileto que no fortalecimento do esporte a motor nacional. Embora seja obrigação de diretores das categorias e até mesmo da Confederação Brasileira de Automobilismo, os "aspones" das pistas também deveriam se preocupar em fazer esse automobilismo tão promissor crescer. Automobilismo também gera empregos diretos e indiretos, é o sustento de muitas famílias, mas enquanto não matar de vez a impressão de que automobilismo é passatempo para "filinho de papai" vai ser difícil atingir um nível interessante.
Obviamente, o Brasil não tem estrutura para ser comparada aos Estados Unidos ou à Inglaterra. Também devemos reconhecer que é difícil valorizar o automobilismo regional, pois o Brasil tem extensão continental. É difícil, por exemplo, para uma revista fazer coberturas de regionais de kart. Mas há muitas categorias e jovens pilotos promissores no País, que deveriam ser melhores divulgados por aqui. E quando a divulgação interna é melhor, lá fora ela também evolui.
CATANIA: Qual é o processo natural que segue um jovem piloto brasileiro até a Fórmula-1, desde que começa no kart?
LIGEIRO: Perdemos uma opção com o final da Fórmula Renault brasileira. Logo a Fórmula-3 sul-americana é a primeira opção antes de um garoto partir para os Estados Unidos ou à Europa. Daí para frente o caminho é aquele que todo mundo conhece: Fórmula Renault, Fórmula-3 inglesa, GP2...
CATANIA: A imprensa brasileira possui pilotos favoritos entre os que estão atualmente na Fórmula-1?
LIGEIRO: Logicamente a atenção maior nas transmissões dos GPs de F-1 pela Rede Globo fica voltada ao Felipe, que é hoje o brasileiro com chances de vitórias e título na categoria. Mas o Rubinho também tem um bom espaço, assim como o Massa tinha na época em que ele era o menino promissor da Sauber e o Barrichello era o cara que corria ao lado de Schumacher na Ferrari e beliscava umas vitórias. No entanto, foi interessante você usar o termo favorito. A imprensa tem seus prediletos, como Nelsinho Piquet e Bruno Senna. E isso é justificável. Além do sobrenome, eles são pilotos muito promissores. O Nelsinho já está preparado para a Fórmula-1. Já o Bruno ficará em excelente condição daqui dois anos. Vende muito mais exemplares a revista que estampa na capa Nelsinho ou Bruno a outra que expõe meia dúzia de brasileiros bons de braço, mas não tão populares. Atualmente, as questões comerciais assolam fortemente os veículos da imprensa e cabe ao jornalista ter um bom jogo-de-cintura para mostrar o "talentoso famoso" e o "talentoso sem tanta fama". Gosto muito do Nelsinho e do Bruno. São profissionais talentosos e dedicados. Mas o Brasil tem dois garotos muito bons na GP2 e que mereciam mais destaque: Lucas di Grassi e Sérgio Jimenez.
CATANIA: Quanto custa um ingresso para o Grande Prêmio do Brasil, lá em Interlagos?
LIGEIRO: Os valores variam de 400 (setor G, sábado e domingo) a 2.265 reais (setor E, três dias) para o GP desse ano.
CATANIA: Com tantos brasileiros no exterior e na F-1, você admira algum piloto que não seja do Brasil?
LIGEIRO: Sem dúvidas. Quando comecei a acompanhar a Fórmula-1, em 1993, logicamente torcia para Ayrton, Rubinho e Christian. Mas também admirava demais o Alain Prost, um dos pilotos mais completos que já vi. Mais recentemente o Michael Schumacher, além do Alessandro Zanardi, um exemplo de superação pessoal. O arrojo do Jean Alesi também sempre chamou minha atenção. E é assim. Na época em que o Montoya se assanhava contra o domínio de Schumacher, sobrou brasileiro querendo adotar o colombiano.
CATANIA: Quais são as três coisas que você pensa que o automobilismo brasileiro tem de melhorar, e as três coisas que você adora do esporte a motor de seu país?
LIGEIRO: Segurança e infra-estrutura nos circuitos, além de maior criatividade na divulgação. Já três das minhas preferências do automobilismo nacional... A mescla de pilotos de diferentes gerações em categorias como a Stock Car V8, a grande busca pelo kartismo e aquela torcida que realmente gosta de automobilismo e acompanha inclusive nos momentos difíceis de nossos compatriotas.
CATANIA: O que você sente quando escuta o "Tema da Vitória". Esse sentimento, é compartilhado por seus conterrâneos?
LIGEIRO: Quando o assunto é banalização, brasileiro é campeão do mundo. Veja um exemplo: o histórico de corrupção na política brasileira é tão grande que, quando acontece um novo episódio de desvios de dinheiro público, a grande maioria pensa: "É só mais um". O brasileiro já está calejado disso. O mesmo ocorre com o "Tema da Vitória". A música foi criada em 1983 para celebrar as vitórias brasileiras na Fórmula-1. Mas esse propósito não é respeitado. Se utiliza essa música em qualquer ocasião... É campeão no futebol? Toca o "Tema da Vitória"! É campeão no vôlei? Toca o "Tema da Vitória"! É programa de auto-ajuda no rádio? Toca o "Tema da Vitória"! Apesar disso, é impossível não se lembrar dos triunfos de Senna e Piquet na fase de ouro do Brasil na Fórmula-1, nos anos 80, quando a música toca, de fato, para celebrar uma nova vitória brasileira na Fórmula-1.
CATANIA: Eu creio que em uns anos será possível a amizade entre a maioria dos torcedores de automobilismo argentinos e brasileiros (graças às ligações entre TC2000 e Stock Car V8), mas não a amizade dos torcedores desses paises no futebol. O que pensa você?
LIGEIRO: A rivalidade sempre vai existir, lógico. Mas é preciso ser uma rivalidade saudável. Do contrário, é imbecilidade. Eu não tenho absolutamente nada contra a Argentina. Muito pelo contrário. É um país que gosto muito e que escolhi para publicar meus artigos Mundo Ligeiro. Tenho orgulho de ser latino-americano. Aliás, além de admirar o futebol argentino, especialmente a escola de goleiros, eu só tenho a agradecer ao time que adotei na Argentina, o Boca Juniors, que nas últimas Libertadores fez o favor de eliminar os principais rivais do meu time predileto aqui no Brasil... Aliás, mesmo time de Emerson, Ayrton e Rubinho.
Resultado final. Para divulgar mais um pouco o próprio país, é só falar. Para conhecer mais um pouco sobre outro país, é só escutar. A dupla-estratégia foi bem sucedida finalmente. Isto é automobilismo, mas essa conversa pode ser um exemplo para que outras matérias imitarem. Cada um dos entrevistadores-entrevistados mostrou adoração pelo desafio.
Ficaram esclarecidas todas as dúvidas deles? De seguro que não, mas o jogo começou. E os primeiros passos sempre são importantes...
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